sexta-feira, 17 de março de 2023

Manoel encontra Getúlio

Inúmeros artistas colecionaram fragmentos de coisas aparentemente sem valor, recriaram uma miríade de formas utilizando materiais abandonados e descartados pela sociedade de consumo. De Picasso a Annette Messager, passando por Miró, que possuía um amor quase franciscano pelas coisas, e por Dubuffet, que toma o partido da matéria para nela perceber infinitas possibilidades. A lista de artistas voltados a expressar novas significações ou a alma de coisas relegadas à indignidade do descartável é longa e diversificada.

A essa lista de artistas podemos acrescentar Getúlio Damado e a poesia de Manoel de Barros. Com trajetórias que se assemelham na busca da transformação daquilo que é considerado desimportante, seus trabalhos dialogam intimamente, e conduzem o olhar e o imaginário do observador para encontros inusitados com o peculiar território poético criado pelos artistas.

É valioso perceber que esse trabalho, além de capturar nossos sentidos, também resgata algo indecifrável de nós mesmos: as memórias da infância como um território de liberdade e criatividade. Estamos apresentando um repertório que carrega consigo todo um acervo cultural que é nosso, no qual existe um sentimento  de pertencimento.


Para Getúlio Damado, formar é o mesmo que transformar, seu trabalho desperta no espectador o respeito pela matéria, a mudança das nossas percepções, pensamentos e valores. Uma avaliação interna sobre a cultura do desperdício através de uma experiência impactante, lúdica, poética e, ao mesmo tempo, crítica.

Manoel de Barros  | reprodução da internet

O apanhador de desperdícios

Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato
de canto.
Porque eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.
 

Se a arte, por um lado é alcançar a essência do objeto, por outro, a arte promove o desdobramento do real com o intuito de rever as unidades das coisas. A realidade do indivíduo é moldada por meio da linguagem, e ela propõe vínculos de representação através de uma linguagem primordial.


Essa instalação vem acompanhada por uma trilha sonora inédita criada pelo compositor Pedro Igel, com diversos sons de passarinhos, alguns feitos por Pacari Pataxó através de um tradicional apito artesanal indígena. 

A instalação conta também com painel pintado pela artista plástica Luciana Arantes.

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